FISCALIZAÇÃO / TRÂNSITO
Como irá funcionar radar por IA nas rodovias federais? Veja perguntas e respostas

Com o anúncio da Polícia Rodoviária Federal (PRF) de que irá iniciar um teste com câmeras e sistemas de inteligência artificial (IA) para identificar infrações de trânsito em rodovias federais, diversas dúvidas surgem entre os motoristas sobre como essa fiscalização vai funcionar na prática.
A proposta da PRF é realizar, em um primeiro momento, um teste de 180 dias com o uso de videomonitoramento aliado à IA em diferentes rodovias federais. O objetivo é apoiar a atuação dos agentes, coibir comportamentos de risco e ampliar a segurança viária.
Apesar de o período ser classificado como experimental em relação aos equipamentos, a corporação afirma que todas as infrações flagradas e validadas por um policial durante a vigência resultarão em autuação, com aplicação de multa.
A seguir, Zero Hora reuniu perguntas e respostas para esclarecer o que já se sabe até o momento sobre o funcionamento desse novo modelo e o que os motoristas precisam saber antes do início da operação.
Confira perguntas e respostas
Como irá funcionar, na prática, o sistema de IA usado para identificar infrações?
Câmeras com inteligência artificial integrada serão instaladas em trechos definidos das rodovias federais. Elas terão a capacidade de identificar situações de risco e transmitir um alerta em tempo real aos centros de comando da PRF.
Essa notificação pode aparecer como um pop‑up na tela do computador do policial e das centrais de videomonitoramento. A partir disso, é o agente quem irá analisar a imagem em tempo real, verificar se há, de fato, infração de trânsito e identificar o veículo envolvido.
Ou seja, a autuação não será feita pela inteligência artificial. Cabe exclusivamente ao policial confirmar a irregularidade e registrar a multa. O modelo mantém a decisão humana como etapa obrigatória do processo.
Quando os equipamentos começam a ser instalados e a operar efetivamente?
A PRF aponta que o teste começará ainda no mês de maio, mas a data exata de início não foi confirmada.
Onde esses testes serão realizados?
A tecnologia deverá ser implementada em trechos de rodovias federais que ainda serão divulgados. Segundo o coordenador nacional de Comando e Controle da corporação, Stenio Pires, as empresas selecionadas para fornecer a tecnologia poderão indicar locais para a instalação dos equipamentos.
O teste será aplicado em rodovias do Rio Grande do Sul?
Até o momento, não há confirmação sobre a instalação de equipamentos no Rio Grande do Sul. No entanto, como uma das empresas selecionadas é do Estado, a expectativa é de que parte dos testes também sejam realizados em rodovias federais que atravessam o território gaúcho.
Quanto tempo irá durar o teste?
O período experimental irá durar 180 dias, a partir de data a ser definida.
Quais infrações poderão ser detectadas nessa fase de testes?
A inteligência artificial será capaz de identificar até 82 tipos de infrações de trânsito. A prioridade da PRF, porém, serão as infrações de circulação, consideradas as que apresentam maior risco de sinistros graves ao longo das rodovias federais.
Entre as condutas monitoradas estão: transitar pelo acostamento, ultrapassar em local proibido, realizar ultrapassagens forçadas e executar manobras arriscadas, como a chamada "costura" entre veículos no tráfego.
As câmeras conseguem ver o interior do veículo?
Sim. As imagens têm resolução suficiente para identificar infrações como o uso do cinto ou do celular. Mas a corporação afirma que não há monitoramento contínuo ou invasivo do interior dos veículos.
A PRF destaca que algumas condutas comuns no dia a dia também podem ser enquadradas como irregularidades de trânsito, a depender da forma como são realizadas. Segurar objetos enquanto dirige, como garrafa de água, copo térmico ou cuia de chimarrão, pode caracterizar infração.
Pelo Código de Trânsito Brasileiro, o condutor deve manter as duas mãos no volante, sendo permitida a retirada de uma delas apenas momentaneamente, para ações como trocar a marcha, acionar comandos do veículo ou ajustar o rádio.
A multa é aplicada automaticamente pela inteligência artificial?
Não. A IA apenas identifica e sinaliza a possível infração. As imagens são enviadas para um Centro de Controle Operacional, onde um agente da PRF confere o registro antes da autuação, garantindo que não haja multa sem validação humana.
Haverá sinalização específica alertando sobre a fiscalização por IA?
Sim. A Resolução nº 909 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) determina que a fiscalização por videomonitoramento deve ser obrigatoriamente informada por meio de sinalização.
Quais mecanismos garantem que não haja erros ou autuações indevidas?
Segundo a PRF, o principal mecanismo para evitar erros é que a inteligência artificial não realiza a autuação. A tecnologia atua apenas como sistema de alerta. Ela sinaliza ao policial rodoviário a ocorrência de uma possível infração.
Cabe exclusivamente ao policial analisar a cena, verificar se a infração está sendo cometida e decidir se haverá ou não a autuação. A multa só é registrada após essa confirmação humana.
O motorista terá acesso às imagens que fundamentaram a autuação?
Não. O sistema não fará gravação contínua, nem armazenará fotos ou vídeos nas bases de dados da corporação. As imagens analisadas pela inteligência artificial não ficam salvas e não integram automaticamente o auto de infração.
Como fica a questão da prova da infração se não há gravação ou fotografia?
A PRF explica que o procedimento segue o mesmo princípio adotado na fiscalização presencial. Quando um policial visualiza uma infração à margem da rodovia, não há necessidade de registro em imagem: a autuação é baseada na fé pública do agente, que tem autoridade legal para realizar a infração a partir da observação direta.
Nesse novo modelo, a metodologia não muda. A fé pública é a mesma, independentemente de o policial estar fisicamente no local ou utilizando um equipamento de apoio. Apenas em situações específicas previstas em lei — como excesso de velocidade ou avanço de sinal vermelho — é exigido o registro fotográfico automático.
O motorista pode recorrer da multa?
Sim. O direito à defesa e ao recurso é o mesmo aplicado a qualquer outra autuação de trânsito.
Esse teste pode virar fiscalização definitiva?
A PRF informou que se trata de um período experimental de até 180 dias, com equipamentos recebidos por chamamento público. Após esse prazo, os resultados serão avaliados para decidir se a tecnologia será adotada de forma definitiva.
Algum Estado brasileiro já aplica esse modelo?
Sim. No Espírito Santo, desde fevereiro de 2026, a tecnologia já vem sendo aplicada na BR‑101. Os equipamentos estão instalados em pontos estratégicos da rodovia, definidos a partir de estudos técnicos, que identificaram trechos com maior incidência de acidentes.
Em um mês de operação, foram registradas 433 infrações, sendo 390 relacionadas à ausência do cinto de segurança, 42 ao uso de celular durante a condução e uma por outras irregularidades.
A previsão é de que, até 2027, cerca de 70% da BR‑101 no Espírito Santo esteja monitorada por esse tipo de tecnologia.